A OUSADIA DO CORPO QUE CLAMA PARA CONTAR-SE:
metaficção e escrita de si em Quarto de despejo e Casa de Alvenaria, de Carolina Maria de
Jesus
Carolina Maria de Jesus. Metaficção. Escrita de si. Corpo. Autorreflexividade.
A reificação do humano, a constituição do sujeito e a subjetividade configuram debates centrais nas discussões contemporâneas sobre literatura e linguagem. À vista disso, esta dissertação analisa os procedimentos metaficcionais presentes em Quarto de despejo (1960) e Casa de alvenaria (1961), de Carolina Maria de Jesus, compreendendo a metaficção como operação narrativa por meio da qual a autora articula experiência, enunciação e construção de si. Parte-se da premissa de que a escrita caroliniana, situada entre o empírico e o imaginário, apresenta uma consciência do fazer literário que transforma a experiência vivida em elaboração estética e discursiva, em que o corpo, ancorado pelo eu, se performatiza. Desse modo, evidencia-se a inserção da autora no universo do narrado, conferindo-lhe um protagonismo ficcional que intensifica o evento autobiográfico, e a presença de uma escrita de si que reverbera para o próprio fazer literário, o que demarca um procedimento autorreflexivo em que a ficção questiona a si mesma. A pesquisa orienta-se, assim, pela seguinte questão: de que modo a metaficção se manifesta como estratégia narrativa nas obras de Carolina Maria de Jesus? Trata-se de um estudo qualitativo, bibliográfico e analítico-interpretativo, fundamentado em autores como Linda Hutcheon (1984), Gustavo Bernardo (2010), Michel Foucault (1992) e Elzira Perpétua (2003), entre outros, cujas reflexões permitem compreender o campo literário como espaço de subjetivação e autorreflexividade. As análises revelam que Carolina Maria de Jesus constrói uma escrita metaficcional e insurgente, na qual seu timbre pessoal transforma a narrativa em gesto poético, político e epistemológico de existência, reafirmando a importância da literatura para o nosso tempo e a sua potência como vertente emancipatória da arte.