“O demônio em realidade”: o mal parasitário e o suicídio em Os demônios, de Dostoiévski
Dostoiévski. Suicídio. Mal parasitário. Liberdade. Niilismo.
O suicídio constitui um dos temas mais recorrentes em toda a história da literatura, em razão de seu caráter trágico e do mistério de suas motivações. Na contemporaneidade, passou a configurar também um problema de saúde pública, visto que transtornos neurais, como a depressão, tornaram-se mais frequentes e, em casos graves, podem ter como consequência a morte voluntária. Este trabalho apresenta uma análise do suicídio dos personagens Kiríllov e Stavróguin no romance Os demônios (2016), de Fiódor Dostoiésvki, à luz do conceito de “mal parasitário” formulado por Luigi Pareyson (2012). Parte-se do pressuposto de que o mal, na poética dostoievskiana, não possui existência própria, mas parasitária, pois precisa do corpo humano para apoiar-se e corrompe-lo interiormente até levá-lo à autodestruição. A pesquisa organiza-se em duas partes complementares: a primeira, de caráter histórico e contextual, examina a modernidade russa oitocentista, marcada pela crise espiritual e moral provocada pelas ideias ocidentais niilistas na formação do indivíduo moderno. A segunda, de característica teórico-interpretativa, analisa o conceito de mal em Dostoiévski, com base nos fundamentos filosóficos de Pareyson (2012) e Berdiaev (2021), identificando suas manifestações no romance estudado. A pesquisa adota metodologia qualitativa de caráter bibliográfico, firmando-se em autores consagrados da crítica literária da obra de Dostoiévski, como Bakhtin (2018), Frank (2018), Grossman (1967) e Tchirkóv (2022), para articular a análise proposta. Assim, verificou-se que, em Os demônios, o mal se encarna nas personagens como uma doença do ser, cuja ação parasitária conduz à cisão da personalidade, à liberdade arbitrária e à dissolução completa no ato suicida.