INTERSECCIONALIDADE E DECOLONIALIDADE NA LITERATURA MARANHENSE CONTEMPORÂNEA: o gênero epistolar na representação do feminino como prática de resistência e reexistência em Quem é essa mulher?, de Milena Carvalho
Interseccionalidade; Decolonialidade; Escrita feminina; Romance contemporâneo; Literatura maranhense.
Este trabalho analisa o romance Quem é essa mulher? (2018), de Milena Carvalho, considerando como a escrita epistolar estrutura uma narrativa atravessada por questões de raça, gênero, classe e território no contexto da literatura maranhense contemporânea. A obra mobiliza experiências de mulheres negras, evidenciando processos de silenciamento, violência, resistência e reexistência. Parte-se do entendimento de que a literatura, enquanto prática discursiva, constitui um espaço de produção de subjetividades e de disputa simbólica, no qual vozes historicamente marginalizadas emergem e reconfiguram os limites do campo literário. Nesse sentido, o gênero epistolar é compreendido como forma privilegiada de expressão íntima e política, capaz de articular memória, corpo e território como dimensões centrais da experiência narrada. Desse modo, o problema central que orienta a pesquisa é: de que maneira a escrita epistolar em Quem é essa mulher?, de Milena Carvalho, articula uma perspectiva interseccional e decolonial para tensionar os silenciamentos epistêmicos e oportunizar formas de resistência e reexistência de mulheres na literatura maranhense contemporânea? Para tanto, o objetivo geral da pesquisa é analisar como o gênero epistolar, no romance, constrói uma escrita de resistência e reexistência a partir de uma perspectiva interseccional e decolonial, articulando corpo, memória e território. Os objetivos específicos incluem: (i) Investigar a articulação entre interseccionalidade e decolonialidade na obra, considerando a crítica à colonialidade do poder e à invisibilização de vozes femininas no campo literário, bem como a problematização de discursos hegemônicos no contexto maranhense. (ii) Compreender o gênero epistolar como prática discursiva íntima, responsiva e politicamente situada, examinando os recursos linguísticos e o caráter dialógico do texto na constituição de sentidos e na construção da narrativa. (iii) Discutir como corpo, memória e território se configuram como eixos estruturantes da subjetividade da narradora e das estratégias de resistência e reexistência na obra. Partimos da hipótese de que o uso do gênero epistolar constitui uma estratégia narrativa que possibilita a emergência de uma voz feminina capaz de possibilitar a emergência de uma voz feminina que tensiona silenciamentos históricos e reconfigurar o espaço literário como lugar de resistência, memória e reexistência. A fundamentação teórica apoia-se na teoria dos gêneros discursivos e no conceito de dialogismo de Mikhail Bakhtin (1997; 2006), ampliados pelas contribuições de José Luiz Fiorin (2006). No campo dos estudos decoloniais, mobilizam-se os conceitos de colonialidade do poder de Aníbal Quijano (2005), o conceito de colonialidade do ser, de Nelson Maldonado-Torres (2007), e as críticas ao eurocentrismo de Walter Mignolo (2003) e Ramón Grosfoguel (2008). A colonialidade de gênero é abordada a partir de María Lugones (2020), enquanto a perspectiva interseccional é sustentada por Kimberlé Crenshaw (1989), Patricia Hill Collins (2017), Carla Akotirene (2019), além das contribuições de Lélia Gonzalez (1988) e Sueli Carneiro (2011). Para pensar a resistência e a reexistência, dialoga-se com Frantz Fanon (1980) e Cristiane Tolomei (2019). Os resultados indicam que a obra se configura como espaço de disputa simbólica, no qual a escrita epistolar possibilita a emergência de uma subjetividade negra feminina que ressignifica experiências de dor, memória e território. Ao articular elementos interseccionais e decoloniais, Quem é essa mulher? tensiona discursos hegemônicos e reafirma a literatura como prática crítica de resistência, memória e reexistência.