A ESCREVIVÊNCIA NA OBRA QUARTO DE DESPEJO, DIÁRIO DE UMA FAVELADA, DE CAROLINA MARIA DE JESUS (1960): RAÇA, RESISTÊNCIA E GÊNERO.
Escrevivência; Literatura negra feminina; Carolina Maria de
Jesus; Conceição Evaristo; Resistência.
A presente dissertação analisa a escrevivência de Conceição Evaristo (2016) no contexto da obra Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), de Carolina Maria de Jesus, evidenciando as relações entre raça, gênero e resistência na literatura negra feminina brasileira. O objetivo principal é compreender de que modo a escrevivência, conceito formulado por Evaristo, manifesta-se na narrativa caroliana como forma de denúncia social, representação da vivência negra e afirmação identitária das mulheres periféricas. A pesquisa possui natureza qualitativa e caráter bibliográfico, fundamentando-se em autoras como Sueli Carneiro (2011), Djamila Ribeiro (2019), Lélia Gonzalez (1988), bell hooks (1994; 2013), Grada Kilomba (2019) e Angela Davis (2016). A partir desse diálogo teórico, busca-se evidenciar como a produção intelectual de mulheres negras contribui para questionar os mecanismos históricos de exclusão e silenciamento que marcaram a formação da sociedade brasileira e de seu cânone literário. A análise demonstra que a escrita de Carolina Maria de Jesus ultrapassa o relato individual e assume dimensão política e coletiva, ao expor o cotidiano das favelas, a fome, a desigualdade social e o racismo estrutural como experiências concretas vividas pela população negra. Ao aproximar-se do conceito de escrevivência, sua obra evidencia a mulher negra como sujeito de saber e produtora de conhecimento, transformando a escrita em espaço de resistência e reconstrução da memória coletiva. O estudo também discute a recepção crítica de Quarto de despejo e a forma como a marginalização de Carolina Maria de Jesus se relaciona com um processo histórico de desvalorização das intelectualidades negras. Conclui-se que a escrevivência, enquanto prática estética e política, constitui uma epistemologia que legitima as experiências das mulheres negras como fontes de conhecimento, contribuindo para a reconfiguração da literatura brasileira e para a construção de uma pedagogia de resistência baseada na representatividade e na pluralidade de vozes historicamente silenciadas.