MEMÓRIAS E AUTOBIOGRAFIAS COMO CONSTRUÇÕES DOS NARRADORES NOS ROMANCES INFANTOJUVENIS: CAZUZA, DE VIRIATO CORRÊA, E CHIQUINHO, DE BALTASAR LOPES
memória; autobiografia; narrador; literatura comparada; literatura
infantojuvenil.
A presente dissertação, intitulada Memórias e autobiografias como construções dos
narradores nos romances infantojuvenis: Cazuza, de Viriato Corrêa, e Chiquinho, de
Baltasar Lopes, tem como objetivo analisar comparativamente os romances Cazuza
(1938), do escritor maranhense Viriato Corrêa, e Chiquinho (1947), do cabo-verdiano
Baltasar Lopes, a partir das relações entre memória, autobiografia e figura do narrador.
A pesquisa insere-se na linha de investigação Literatura e Memória do Programa de
Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e propõe-se
a compreender como a narrativa memorialística e autobiográfica contribui para a
construção identitária e histórica dos narradores-protagonistas nas duas obras
analisadas. Metodologicamente, o estudo fundamenta-se nos pressupostos da Literatura
Comparada, conforme Carvalhal (2006) e Nitrini (2000), articulando as reflexões de
Ecléa Bosi (1994) e Pierre Nora (1993) sobre memória, de Philippe Lejeune (1973)
sobre o pacto autobiográfico e de Gérard Genette (1972) e Carlos Reis (1980) sobre a
teoria da narrativa. O corpus literário foi examinado em diálogo com os contextos
históricos e sociais de produção — o Brasil da Era Vargas e o Cabo Verde colonial —
buscando compreender as confluências e divergências entre as experiências de formação
cultural, educacional e identitária expressas nas narrativas. Os resultados indicam que,
em Cazuza, Viriato Corrêa transforma suas lembranças de infância e juventude em uma
escrita de si que reflete o projeto nacionalista e educativo do Brasil de 1930,
evidenciando a função pedagógica e cívica da literatura infantil. Já em Chiquinho,
Baltasar Lopes constrói uma narrativa que, embora igualmente autobiográfica, adquire
caráter de resistência política e cultural, ao retratar a seca, a pobreza e o desejo de
emancipação do povo cabo-verdiano. Em ambas as obras, a memória individual dos
narradores entrelaça-se à memória coletiva de seus povos, revelando um duplo
movimento: de afirmação da identidade e de preservação cultural. Conclui-se que as
duas narrativas, apesar de provenientes de contextos geográficos e históricos distintos,
convergem no uso da autobiografia como instrumento de formação e conscientização
social. Assim, Cazuza e Chiquinho transcendem a esfera do relato pessoal para
assumirem relevância simbólica e histórica, tornando-se expressões literárias de
resistência, pertencimento e reconstrução de memória. A pesquisa, portanto, reafirma a
importância da literatura infantojuvenil como espaço de elaboração da memória e da
identidade, bem como seu papel formativo na constituição de sujeitos históricos e
culturais.