A OUSADIA DO CORPO QUE CLAMA PARA CONTAR-SE: as
interfaces da metaficção em Quarto de despejo e Casa de Alvenaria, de Carolina Maria de
Jesus
Carolina Maria de Jesus. Escrita de si. Metaficção. Corpo. Discurso.
A reificação do humano, a constituição do eu, a subjetividade, o discurso e a literatura
configuram núcleos centrais de debate na contemporaneidade. Nesse cenário, Carolina
Maria de Jesus, ao discursivizar pela tessitura do poético e do ficcional, significa a si e
ao mundo em seu fazer literário, constituindo-se como sujeito-autora por meio de uma
subjetividade estética que integra experiência vivida e criação artística. Esta dissertação
analisa a metaficção e suas interfaces em Quarto de despejo (1960) e Casa de alvenaria
(1961), obras nas quais se evidenciam construções semânticas que articulam o empírico
— o real, o vivido — e o imaginário — o fabulado, o ficcional. Parte-se da premissa de
que a escrita caroliniana, atravessada pela ficcionalização de si, emerge como gesto de
ousadia, em que o corpo, entendido como lugar de experiência e enunciação, torna-se
suporte e matéria narrativa. A pesquisa se orienta pela pergunta: de que modo a
metaficção se manifesta como estratégia narrativa nas obras de Carolina Maria de
Jesus? Trata-se de um estudo qualitativo, bibliográfico e analítico-interpretativo,
fundamentado em aportes teóricos como Foucault (1992), Gustavo Bernardo (2010) e
Elzira Perpétua (2003), entre outros, que discutem as relações entre escrita de si,
subjetividade, ficção, discurso e autoria, e cujas reflexões permitem compreender o
texto literário como dimensão socio-plural. A análise evidencia que Carolina Maria de
Jesus, em sua práxis insurgente e autorreflexiva, reinscreve-se na escrita,
transformando-a em um timbre pessoal, ficcional, político e poético de existência, o que
reafirma sua importância para o nosso tempo e a literatura como vertente emancipatória da arte.