A ressacralização do mundo por meio do fazer literário em Avalovara, de Osman Lins
Avalovara; Osman Lins; literatura e sagrado; ressacralização.
O presente trabalho busca analisar o aspecto do sagrado em Avalovara (1973), de Osman Lins (1924-1978), partindo da noção de um mundo moderno dessacralizado, tal como apresentada por Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano (1957) – obra adotada por Lins como epígrafe para o romance em questão e que estabelece o fulcro teórico desta pesquisa. Pretendeu-se discutir as aproximações e os distanciamentos entre os conceitos de Eliade e o tratamento do tempo, do espaço, da narração, das personagens e do enredo na elaboração literária de Lins. Para tanto, optou-se por delinear as características que Eliade associa ao sagrado: a promoção de sentido na existência do indivíduo; o contraste com a natureza efêmera do profano; a duplicidade secreta dos elementos do mundo, produzida por uma hierofania (manifestação do sagrado) disponível apenas para o homo religiosus – sujeito dotado de uma interação singular com o cosmo; e, em especial, a ideia de ordem. Em seguida, demonstrou-se como Lins
transfigura tais concepções na composição de sua estética literária: a temática da busca nas personagens, a duplicidade diegética, a reconfiguração das propriedades materiais e imateriais, além da desorientação (manifestada tanto na forma quanto no conteúdo do texto) como dispositivo de ressacralização. Trata-se, em suma, da percepção de um ímpeto contrário à perspectiva de um mundo dessacralizado em decorrência da fragmentação de um estatuto ontológico absoluto como apontado por Eliade.